Bateu a campainha que iniciava o intervalo entre as aulas. Para evitar o barulho dos estudantes mais novos ("pirralhos"), eles ficaram na sala de aula. De repente, Diego fez uma revelação: havia conhecido uma menina linda, chamada Radigunda.
- Ah, não. – disse Júlio.
- Não dá não. – concordou Gleidson.
Inocentemente, Clara pergunta:
- E aí pro nome dela?
Os meninos deram os ombros, sinal conhecido que quer dizer a mesma coisa que balançar a cabeça e sussurrar com mistura de pena e descaso: “meninas...”. Mas elas insistiram.
- Nome é só um rótulo. – disse Ana Paula. – Quer dizer, nem isso. É só uma etiqueta.
- Coisa horrível classificar as pessoas pelos nomes. – continuou Clara. As duas olharam para a terceira amiga ainda calada, Larissa. Logo ela, a Lala, feminista, de gênio forte, não podia ficar calada diante daquilo.
- Sei lá... – hesitou Larissa, constrangida pelo olhar das amigas. – Acho que concordo com eles.
- Quê?? – exclamaram suas amigas, enquanto os meninos vibravam pela vitória.
- Tipo, imagina um cara bacana pra caramba, com o nome Clarisbadeu. – argumentou ela. – Sei lá.
Fez-se um silêncio na sala, como de pêsames ao pobre Clarisbadeu.
- Égua... – disse Clara, como que surpresa por ver que aquilo realmente a afetava.
- Devíamos fazer uma lista de nomes proibidos. – sugeriu Gleidson. – Não que a gente vá excluir os que têm eles e tal, mas pra gente pelo menos evitar o contato.
- E a proximidade excessiva. – disse Júlio rindo.
- Pra começar, Radigunda. – disse Diego.
- Duzineide. – disse Gleidson.
- Clarisbadeu. – lembrou-lhes Larissa.
- Meretrides. – acrescentou Diego.
- Astrobaldo. – disse Clara embaraçada.
- Tudo que termina em “baldo”, acho. – disse Larissa friamente.
- Euácido. – disse Gleidson. – E se eu não me engano existe a versão feminina também, a Euácida.
- Leopoldo. – disse Clara.
- Hypotenusa. – disse Júlio.
- Sério, qual é o papo do nome “Clara”? – gracejou Gleidson.
- Robespierre. – disse Diego.
- Celidônio. – disse Ana, finalmente, com um pesar na voz de um passado escuro e amargo, trazendo um clima que só de dissipou com a campainha que marcava o fim do intervalo.



















