
Uma vez pediram para Will falar uma palavra qualquer, sem pensar.
- Tédio. - respondeu.
Mas isso mudaria logo, logo.
Numa noite de lua crescente ele saiu sozinho. Normalmente pedia para alguém se entediar junto a ele, como Luis XIII fazia, mas dessa vez não teve a quem pedir.
Foi à praça, vazia àquela hora. Sentou-se num banco e procurou alguma coisa para entediar-se. Achou.
- Olá! - disse uma jovem sorridente que ele não tinha visto quando chegara.
Will a olhou como quem olha um pirarucu atropelado no meio de uma estrada. Uma mulher sozinha, naquela hora, naquele lugar, puxando a conversa, não parecia algo natural.
Will resmungou qualquer coisa.
- A lua está bonita hoje. - disse a jovem meio sonhadoramente.
Como já foi dito, era lua crescente, e estava bem nublado. Will agora a olhava como quem olha uma mulher vestida de pirarucu no meio da estrada. Uma nuvem passou e tapou completamente o satélite.
- Ah, que chato... - continuou a garota. - Já vou!
Ela o beijou na bochecha e foi embora alegremente.
Os dias foram se passando, e Will se perguntava se não havia sonhado aquela noite. Ainda ia todas as noites ao parque, seu tédio era tão grande que não dormia. Dizia que dormia enquanto estava acordado.
Lua nova. Ótimo, pensava ele. Agora nem com a lua poderia entediar-se. Mesmo assim foi à praça. Iria sentar-se em outro banco, havia formado um sistema de rodizio de bancos em que iria se sentar em cada noite para diminuir o tédio.
Quando chegou no assento escolhido, aconteceu algo que nunca acontecera antes: estava ocupado.
- Peguei primeiro! - disse a jovem fora do comum, mostrando a língua. Logo depois desatou-se a rir. - Vem, vem! - continuou, batendo a palma da mão no espaço que sobrava do banco, como se estivesse chamando um cachorrinho. Will aproximou-se da jovem no banco como se aproxima de um pirarucu na água. Mesmo sabendo que o bicho era meio inofensivo, era assustador.
De repente a garota bombardeou-lhe de perguntas, desde nome e idade até CPF e fobias. Riu até ficar sem ar quando ele disse que tinha medo de pirarucus.
- E qual o seu nome? - perguntou Will hesitantemente quando ela recuperou o fôlego.
- Ora, quer saber meu nome se nem nos conhecemos? - disse ela, e saiu saltitando e rodopiando na escuridão da falta de luar. Ela definitivamente não batia bem da cabeça, pensava Will.
Era horrível demais. Will daria metade de sua vida para cada dia ter metade de sua duração. Cada tic e tac do relógio parecia uma caçoada do universo para infernizá-lo. E parecia que os tics e tacs estavam cada vez mais separados.
Andando um pouco mais depressa que o normal, foi em direção à costumeira praça. A lua, indecisa se sumia ou se expunha-se, estava minguante. Will chegou rapidamente ao banco daquela noite e olhou para os lados ansiosamente.
Para a pobre percepção de tempo de Will, horas, dias e meses passavam naqueles minutos. Ele jurava que seu cérebro apreciava lhe torturar, pois parecia fazer questão que Will sentisse passar cada gota de suco dos minutos do relógio. Fechou os olhos e jogou a cabeça para trás. Gritou de dor e de surpresa quando a sentiu bater em alguma coisa.
- Ai! - disse uma voz atrás de si.
A jovem, que estava por algum motivo atrás do banco, massageava a cabeça, com os olhos úmidos como os de uma criança que se rala em uma brincadeira.
- Só queria lhe dar um susto! Ahhh...! Isso dói muito. Aaah!!! - ela choramingava.
Will observava a jovem sem saber o que pensar. Havia sentido o choque também, mas a garota choramingava como se estivesse no leito de morte. Ela de repente parou a encenação e sentou-se no banco, calada.
Por alguns segundos nada se ouvia na praça. Como se fosse alérgica ao silêncio, ela bradou:
- Tou com raiva de você!
Will quase riu da infantil demonstração de raiva.
- Não ria, é sério! - dizia ela fingindo-se ofendida.
Vendo que Will não se deixava enganar, ela calou-se por alguns segundos, e como se fosse incapaz de fazer isso por mais que esse tempo, continuou.
- Vamos dançar?
Não havia um único som na praça, nem instrumento musical. Mas agora Will não hesitou nem olhou-a como pirarucu algum. A "dança" que dançavam não seguia sentido nenhum, mas de alguma forma tinha ritmo. No final, quando improvisaram uma desajeitada valsa, ela lhe perguntou com a cabeça encostada em seu ombro.
- A próxima é lua cheia. Você vem?
Will, quando lhe faziam a pergunta do início, agora respondia lua. E ninguém entendia nada.





