
Era como um filme adolescente. A protagonista tem uma queda pelo garoto mais popular da escola, que sequer a percebe. Por tal e tal acontecimento, ele o faz, e BAM!, o amor da pobre garota é correspondido. Ele, junto um buquê de flores, envia para ela um convite para um baile. Com certeza a protagonista iria pular de alegria na cena seguinte. Mas o protagonista desta história não é a protagonista do filme.
O protagonista aqui é o figurante. Aquele que apareceu naquela cena em que a menina andava sozinha tarde da noite na rua e o seu boyzão, que por sorte passava por lá, lhe ofereceu uma carona. Aquele vagabundo que aparecia no fundo da cena é o protagonista. Se lembra? Não? Pois é.
Agnaldo era seu nome. Não era nome de galã de filme. Era um nome comum.
Era muito insensível e, como a maioria das pessoas que passam a maior parte do tempo vadiando na rua, não tinha muito respeito por mulheres. Não tinha, e achava ridículo ter.
Também achava ridículo se humilhar por qualquer pessoa que fosse. Achava ridículo dar valor a uma pessoa a ponto de se mudar por ela.
Sim, ridículo, pensava ele enquanto arrancava uma rosa da praça deserta.
O que estou fazendo? Pensava ele, enquanto deixava que seus pés o guiassem.
O que meus amigos falariam se me vissem segurando uma rosa no meio da noite? Ia amassar a rosa em sua mão, mas não pode deixar de fazer uma comparação entre a flor e
ela.
Era uma moça de família, e de boa escola. Nunca iria ligar para um vagabundo como ele. Infelizmente histórias com damas e vagabundos só terminavam bem nos livros. Ele sequer sabia desses livros.
No meio da noite, desesperado, na frente da casa dela, com uma rosa na mão.
Chegou a tempo de ver o garotão abrir a porta do carro elegantemente para ela. “Ela” é uma ofensa. Estava espetacular, pelo menos aos olhos dele. Viu-a entrando no carro, e eles partindo para o horizonte escuro. Viu uma das rosas que caíra do buquê que ela carregava. Muito mais bem cuidada que a desnutrida flor que segurava. Não chegou a ver o cartão graciosamente escrito que ela tinha recebido.
Deixou sua humilde flor arrancada da praça no correio dela, e sentou-se no meio-fio da calçada. A garota provavelmente iria evitá-lo quando chegasse. Não a culpava.
Era o personagem errado na história errada.