
Embora algumas vezes eu discorde disso, sou a favor daqueles que pregam a morte das emoções. Isso é bem impossível, eu sei, mas falei no sentido não literal. Sou a favor daqueles que não se deixam morrer pelas emoções, ou que elas não tem quase papel nenhum em suas decisões. Exceções existem, mas existem também em tantas outras coisas que não faz mais sentido ter o trabalho em falar que elas existem aqui também.
Alguém pode imaginar uma pessoa assim como um psicopata sangue-frio, mas não falo disso. O ser quase-que-absolutamente racional saberia levar em conta que não há quase ninguém nesse estágio, e teria que ter cuidado com isso. Vamos tomar como exemplo Guilherme, que é um exemplo exemplar. Se sua filhinha chegasse da escola triste por que alguém havia rasgado seu desenho (
“o melhor que eu já fiz!”), ele ainda a levaria para uma lanchonete, embora estivesse na hora dela fazer o dever de casa. Nada muito caro, porque aí também reside o ser racional.
Se sua outra filha, já maior (entenda: maior que dezoito anos), chegasse chorando por ter terminado com o namorado (
“eu tinha certeza que era ele...”), Guilherme ainda saberia dizer coisas como “você tem os olhos lindos da sua mãe”, ou “você tão linda assim e ele ainda conseguiu terminar com você?”, ou “uma lágrima sua não vale a vida daquele desgraçado” (ser racional tem limites). E no outro dia, ele ainda serviria o café da manhã na cama dela.
Ouvindo uma piada ruim, Guilherme saberia dar o sorrisinho para não machucar o locutor. Ouvindo uma boa piada, ainda riria, tomando cuidado para sua alegria não ferir os menos alegres ali. Se Guilherme chegasse estressado do trabalho, ninguém perceberia. Estresse e raiva são mais contagiosos que qualquer doença, e ele, o racional, saberia disso. Indo a um velório de um amigo, ainda sentiria muito pesar e respeitaria o momento como ninguém. Talvez guardasse uma lembrança do falecido, talvez dedicasse algum tempo do dia a memória dele, mas sempre sabendo que o tempo passa, as pessoas mudam e se mudam, temos que pensar em nós que ainda estamos aqui.
Vejam que Guilherme não é intocável em relação a emoções, ele apenas as domina. O racional sabe que elas tem a tendência de se alastrar e de se impor a outras pessoas. Na sua tentativa de não contaminar a ninguém, ele deve ficar exausto, principalmente no início. Provavelmente recorreria a um papel e caneta, ou a um teclado e um blog. Guilherme sabe que o mundo talvez seria um lugar muito sem graça se todos fossem como ele, mas ele é necessário. Ele sabe como são complicadas as relações humanas.